A resistência do nordestino volta a ser colocada em prova a cada estiagem, uma angústia provocada pelo receio de um futuro incerto. Sempre a espera dos estrondos dos trovões e do cheiro da terra molhada pela chuva que não vem, o sertanejo é persistente, forte, não desiste nunca.E para driblar as adversidades impostas, a busca por novas alternativas acaba sendo uma constante. Com a ajuda de novas tecnologias, alguns programas vêm dando uma nova perspectiva de vida aos incansáveis produtores rurais ou empreendedores do campo, como preferem ser chamados atualmente.
Um dos programas que está trazendo esperança a esses pequenos proprietários de terra, na sua maioria , tem o sugestivo nome de “Balde Cheio”. Desenvolvido em uma parceria que envolve instituições como BNB, SEBRAE e Prefeituras, o programa surgiu, ao contrário do que se possa imaginar, de uma idéia simples, mas com um grande e decisivo diferencial: a assistência técnica.
O Balde Cheio é um sistema de produção de pasteio rotacionado. Fácil de desenvolver, basta um pequeno espaço de terra, que pode ser a partir de um hectare, sem muita exigência de terreno, dividido em 28 piquetes iguais. Daí inicia-se o plantio de um tipo de capim melhorado geneticamente e de crescimento rápido ou de palma adensada, que necessita de pouca água e é de ótima qualidade.O programa, que surgiu na Embrapa de Minas Gerais, está sendo considerado como uma das soluções, junto com o melhoramento genético bovino, para as regiões com tradição na pecuária e na produção de leite. O sistema consiste em um rodízio, para que a cada dia a vacaria se alimente num piquete diferente, dando o ciclo de 28 dias, sendo tempo suficiente para que o plantio, no caso do capim, do primeiro piquete esteja recuperado e pronto alimentar o rebanho novamente.
O Programa que já está em todos os estados brasileiros, atingindo 4 mil proprietários de terra, chegou em 2010 no Rio Grande do Norte. De acordo com Thiago Palmeira, coordenador no Estado do “Balde Cheio”, no RN o programa está implantado em praticamente em todas as regiões, atingindo 162 propriedades, com o auxílio de 21 técnicos em treinamentos, e com expectativas de fechar 200 propriedades até o término do primeiro ciclo de 24 meses, que acaba em 2012. “Os resultados são fantásticos, o RN é um estado com um potencial incrível, precisamos melhorar os entraves da comercialização para que os produtores tenham segurança e que toda produção seja absorvida”, disse.
Porém em relação a produção, os proprietários podem ficar despreocupados. Em Currais Novos, ao contrário das outras cidades, o programa foi adotado pela cooperativa CERSEL (Cooperativa de Energia e Desenvolvimento Rural do Seridó), uma unidade de beneficiamento de leite. O presidente da instituição, Davidson Magnos(foto), que também é assistido pelo “Balde Cheio”, desde o mês de janeiro deste ano. Segundo ele, a CERSEL deixa de atender a todos os seus clientes, devido a pouca demanda no fornecimento de leite. E os números impressionam: “Aqui nós temos 400 produtores de toda região do Seridó fornecendo leite, recebemos diariamente 22 mil litros, e precisaríamos de 35 mil para atender a nossa necessidade”, explica.Davidson acredita que o programa será a solução a médio prazo. Entre os fornecedores da CERSEL, dez já estão sendo assistido pelo técnico e os resultados são expressivos. “Eu, por exemplo, produzia 80 litros e hoje produzo 240 litros, e esse ano também aconteceu uma situação inédita em minha propriedade, pela primeira vez chegou o mês de novembro e eu não tive que comprar forragem para o meu gado, agora tenho sobrando, inclusive para vender”, comemora.
O técnico da CERSEL, responsável pelo programa na região do Seridó, é o zootecnista Vlademir Barbosa. Ele explica que o programa é a alternativa para os produtores rurais, principalmente os pequenos, porque os custos de manutenção com alimentos cai drasticamente e a produção aumenta consideravelmente. Mas ainda precisa mudar a mentalidade dos produtores acostumados com os antigos manejos do gado. “Estamos fazendo um trabalho de conscientização juntos aos produtores, mas os resultados são muito bons, e o interesse deles aumentam a cada dia, não tenho dúvida que esse programa vai trazer uma nova realidade para o homem do campo”, disse.Vlademir informa ainda que a intenção é ir ainda mais longe. Junto com a gestão do SEBRAE, o objetivo é tornar a propriedade uma espécie de empresa, onde é levantado todos os dados para que no final do mês o produtor saiba exatamente os custos e o lucro. “Com o acompanhamento eles vão saber o resultado final, onde acertou ou errou, e se programar melhor para novos investimentos e ampliação do seu negócio”.
Para o analista técnico do SEBRAE, Gustavo Cosme, a capacitação em tecnologia e gestão para o homem do campo da cadeia de bovinocultura leiteira precisa seguir com um plano de comercialização, mas vislumbra uma nova fase nesse tipo de atividade. “Esse é um projeto super importante para atividade leiteira no RN voltar ao patamar que já foi um dia”, disse.
Se o produtor tem o técnico, assessoria do SEBRAE, falta o dinheiro para investir. Faltava, porque é ai que entra o Banco do Nordeste com suas linhas de crédito. Com o programa AgroAmigo, por exemplo, os produtores podem fazer um investimento de até R$ 2.500,00, com uma taxa de juros de 0,5% ao ano, com um bônus de 25% do valor. Com o crédito acompanhado e orientado pelo banco, o resultado é uma inadimplência que não chega a 2%. E os números são bem significativos, na agência de Currais Novos, segundo o gerente de negócios, Luiz Gonzaga, só em 2011 foram realizadas 1.131 operações, o que representa um volume de R$ 2,5 milhões. “O Balde Cheio é importantíssimo, é o momento que o produtor tem de buscar melhores resultados, mudando a cultura antiga, em vista da produtividade, economizando tempo, dinheiro e desperdício”, falou.
Um dos beneficiados pelo crédito é o produtor Agrimald Martins, 44 anos, no sítio José Antonio, zona rural da cidade potiguar de Tenente Laurentino. Com sua pequena propriedade de 2,5 hectares, Bal como é conhecido, há um ano estava sem nenhuma perspectiva, decepcionado com os atrasos do programa de leite, pretendia vender seu sítio e todo o seu rebanho. “Foi quando um amigo meu me ligou e disse pra eu não vender, porque tinha um programa que ia mudar as coisas”. Em junho de 2009, Bal teve o seu primeiro contato com o programa. Implantou na sua propriedade e optou pelo capim braquiária, tipo mais resistente a estiagem. Em pouco tempo viu sua produção aumentar de 60 litros diário, para 200 litros, com aquisição de mais duas vacas. Ele também optou para plantar palmas, e já começa planejar ampliação da vacaria e estipular metas. “Daqui a dois anos quero tudo diferente, tudo melhor, e do jeito que vai no máximo em três anos quero ter 20 vacas no meu curral e sem dever a ninguém”, comemora.E assim o outrora sofrido sertanejo encontra perspectivas reais de melhoria de vida, passando a integrar a cadeia produtiva brasileira, pois o trabalhador rural não tem medo do trabalho, não precisa de pena ou esmolas, apenas uma oportunidade, uma mão amiga e um balde cheio.
** Fotos: Arquivo Vlademir Barbosa e Fátima Souza










