Numa
certa tarde de janeiro - férias escolares –
chegou João de Orestes lá em casa. De
vez em quando era práxis visitar nossa família
e a de dona Suetônia Batista, que adorava vê-lo
tocar, principalmente quando vinha ao Seridó.
A casa encontrava-se de portas abertas para ele, porque
suas vindas a Currais Novos traziam alegria e festa.
Meu pai, Luiz Cândido, é tio dele e a
farra geralmente acontecia na calçada da Rua
Cipriano Lopes Galvão com o grupo tocando samba
e música exclusivamente brasileira. Bem, exatamente
naquela tarde de calor comum ele me disse essas palavras
da citação. Foi aí que eu me apaixonei
perdidamente pela música, embora tenha me descasado
tempos depois quando conheci o poder da literatura.
Pois bem, chegou o momento de homenagear o grande músico
currais-novense João Batista Gomes, conhecido
popularmente por João de Orestes.
Nasceu em Currais Novos em 1947 e faleceu em 2000.
Era filho de Orestes Batista Gomes e Laurinda de Vasconcelos
Gomes.
Começou a tocar quando ele e o amigo Cícero
Soares construíram um violão na oficina
do senhor Trajano. A criação do instrumento
fora a mola que o impulsionou para a música.
Aos 17 anos viajou para o sudeste para morar com o
tio na cidade Patos de Minas e trabalhar na agricultura.
O tio não permitia que ele tocasse, então
ele guardou o instrumento e, após dois anos,
retornou à terra natal. Aqui, começou
a trabalhar como pintor ao lado de seu tio Luiz e seu
pai. Com a abertura da família, cujos tios já
eram músicos, começou a se dedicar a arte
musical estudando instrumentos de corda como violão,
viola e guitarra havaiana, aliás, este último
lhe caía nas mãos harmoniosamente, tamanha
a habilidade com o instrumento. Era uma beleza vê-lo
tocar!
A primeira banda formada por João de Orestes
foi The Ogun Sun, seguindo com Tungstênio. Essa
duas não fizeram muito sucesso. Tempos depois,
nasceu o grupo musical Apaches que permaneceu bastante
tempo realizando shows na capital e no interior. Os
músicos currais-novenses Carlão e João
da Apolo tiveram participação importante
nesse conjunto juntamente com Pereira (baterista e Tio
Antônio (saxofonista) A formação
durou aproximadamente cinco anos quando mudaram o nome
e o estilo para Roda de Samba João de Orestes.
A partir daí o sucesso explodiu e a banda passou
a animar as festas na capital e no interior do Rio Grande
do Norte, chegando a tocar em outros estados como Rio
e São Paulo.
A banda permaneceu mais cinco anos e depois passou
a se chamar Grupo Versátil João de Orestes.
Nesta última formação ele incluiu
os filhos, o irmão Jonas Batista (baterista)
e o tio Antônio Batista (sax tenor).
Por volta de 1979 o grupo produziu um disco chamado
na época de compacto por ser pequeno e tocar
2 músicas de cada lado. Esse projeto revelou
o profundo amor que ele sentia pelo Rio Grande do Norte,
pois as canções eram poemas dedicados
a terra e foram musicados por ele. Temos uma pequena
amostra retirada da minha lembrança menina.
“_ Mulher, bote os bruguelos lá
para o carro
se for preciso, diga que amarro
que essa praia tem feitiço.
_ Marido, essa Redinha é praia minha
nela me sinto menininha
pra quê tanto reboliço?
Fosse inventivo engarrafava
esse ar e com o tal do inventivo
tava rico pra danar...”
É possível perceber nesse poema que o
autor sentia-se inebriado pela atmosfera praiana da
Redinha, além de demonstrar profunda afetividade
pela terra. As demais interpretações ficam
a cargo do leitor.
O curioso é que João de Orestes não
permitia a inclusão de música estrangeira
no seu repertório. Ele só tocava sambas,
embora tivesse optado, no início da carreira
por nomes ingleses para intitular suas bandas.
Faleceu vítima de um infarto no miocárdio,
mas deixou um legado musical que se estende a John Franklim
(arranjador, violinista, baterista e guitarrista), Jimmy
e Jefferson (percursionistas) e Sara (cantora). Nesse
período a banda havia mudado o nome pela última
vez e chamava-se Big banda.
P.S. Não foi possível localizar o disco
e, portanto, o título do poema não pode
ser citado aqui.
Fonte:Luiz Cândido e Juciane Batista
Até a próxima por esta mesma via.
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