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“Quando a memória se esvai, a palavra escrita a preserva”.
Eme Gomes


O BARREIRO DAS ALMAS

Em todas as cidades de todo o mundo há certos lugares com nomes e histórias curiosas. Aqui não poderia ser diferente, portanto, falaremos nessa semana sobre o famoso Barreiro das Almas em Currais Novos.
Lembro-me da minha doce infância e das imposições e castigos atribuídos a mim e a meus irmãos caso fôssemos passear por aquelas bandas do Barreiro das Almas.

As mães alegavam haver um lobisomem por lá ou almas fugidas do cemitério. Além dessas personagens assombrosas falava-se que ali era local de prostituição, por isso, um passeio inocente pelas imediações implicaria em penalidade máxima: quarto escuro e surra de chinelo de rabicho.

A verdade é outra: em 1932 o Barreiro das Almas já existia e fora construído por um fazendeiro chamado Antônio Rafael (hoje nome do bairro onde se localizou o poço). Esse homem era dono do terreno e para abastecer a região mandou cavar o local e fazer um barreiro. Como o Seridó é muito seco, a água armazenada ali mataria a sede dos animais e as lavadeiras poderiam lavar suas roupas sem a necessidade de usar a lavanderia pública municipal.

Pouco se sabe a respeito do Barreiro, mas alguns moradores disseram que João Doido adorava passear por ali e enfeitar as cercas que circulavam o poço. Ele usava como adorno muitas latas, pedaços de tecido, flandres e pedras. Talvez tenha sido esse o melhor momento do Barreiro: a arte e a criatividade de alguém que amava o abstrato.

O barreiro recebeu esse nome por estar localizado por trás do cemitério Sant`Ana e segundo os mais antigos, à noite, as almas iam se banhar naquelas águas. Além dessa estranha denominação e funcionalidade ele também era conhecido como o Barreiro de Seu Juvino, não se sabe exatamente por que, mas deve haver algo referente, já que ganhou essa alcunha pelos arredores de Currais Novos.

Como a cidade começou a crescer e as águas da chuva que desciam do cemitério desembocavam no Barreiro carregando resíduos de seres mortos, restos de flores, fitas, grinaldas e lixo em geral, a saúde pública condenou o reservatório, que aos poucos foi perdendo sua real característica a ponto de tornar-se inutilizável. Com o tempo, o Barreiro foi aterrado e casas foram edificadas.

Para quem não o conheceu, o famoso e assustador Barreiro das Almas está submergido a rua Coronel José Bezerra, tendo como epicentro a cruz do movimento católico SMP (Santas Missões Populares), além disso, o rio que descia para o poço localiza-se na rua Vereador Tomaz Pinheiro.

Hoje, a população cresceu e as residências cobrem o Barreiro. A memória não existe mais, deve estar no subsolo do inconsciente assim como as águas que faziam do poço um local para as almas se banharem.

Nos encontraremos, por esta mesma via.

Fonte: Luiz Cândido

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