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“O homem que não reconhece sua cultura como legado para o outro, não vive, vegeta.”

(E. Gomes)    

A MORTE DE UM QUASE ÍNDIO


A cultura seridoense é rica em personagens curiosos e, sobretudo, criativos. É com base nessa inventividade cuja nascente jorra na alma desse povo carirense que iremos homenagear o velho e popularmente conhecido Cabo Adolfo.


Adolfo Batista dos Santos foi o idealizador do famoso Bloco dos Índios nascido nas proximidades do Bairro Gilberto Pinheiro (Bairro do Brejo), em Currais Novos, há aproximadamente 80 anos.    A tribo do Cabo Adolfo (apelido que ganhou por receber a patente de cabo) desfila pelos carnavais de Currais Novos, desde a época em que esta festa popular era um evento onde as fantasias e máscaras marcavam presença junto aos foliões, que muitas vezes se personificavam em criaturas assustadoras chamadas papangus.

A tribo, que evocava os tupis-guaranis, ensaiava todas as noites (e ainda o faz) na lateral do estádio Coronel José Bezerra, criando coreografias engraçadas e alegorias voltadas para a relação social dos índios cariris e potiguares. Talvez, a intenção do Cabo Adolfo ao comandar esse bloco carnavalesco, fosse apenas alegrar e divertir sem a preocupação com a perpetuação das danças e dos costumes do povo indígena cujas manifestações culturais representavam a história e a sociedade desse grupo, dono das terras invadidas pelos europeus.

Hoje, em situação de abandono, os índios do Brasil vivem sob os infortúnios e a doença que assolam os valores e tradições de seres humanos que só queriam amar a natureza.  Além de atuar como estilista desenhando as indumentárias para os foliões que participavam do Bloco dos Índios, ele organizava o percurso e os assaltos carnavalescos na cidade. Os principais alvos eram as residências de ricos comerciantes ou de pessoas que os acolhiam presenteando-os com cachaça e quitutes.
           
“Era uma alegria ver os índios pela rua, a meninada corria atrás e a gente ria muito com o jeito de cabo Adolfo dançar.”
     
 (Dona Emericiana, moradora do bairro)
                       
Por longos anos, o cabo Adolfo dirigiu o bloco dos Índios que era composto de homens, mulheres e crianças. Atualmente, seus descendentes mantêm a tradição, saindo às ruas todos os anos no mês do carnaval.

Adolfo Batista tornou-se evangélico, afastando-se definitivamente do mundo carnavalesco. Ele pode ter perdido a vontade de criar, mas não perdeu o seu jeito maroto de índio brasileiro. Ele faleceu dia 19 de maio de 2007, em Currais Novos, quase 19 de abril, Dia do Índio.

 Até o nosso próximo encontro por esta mesma via!

Infelizmente, a família não tem uma foto do homenageado, mas os seus personagens ficarão vivos na memória daqueles que admiram as manifestações populares.


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