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As imagens de João Doido

Muitas coisas interessantes acontecem no Brasil devido a sua enorme diversidade cultural, mas o interior do Rio Grande do Norte, especificamente, ganha certas características que o torna singular.
No Seridó, uma região absolutamente quente do referido estado, além do vocabulário peculiar, existia um certo cidadão, conhecido popularmente por João Doido, cujo nome de nascimento não se sabe ao certo, se era João Batista, João Maria ou João qualquer coisa, só sei que este servia de bobo da corte nos becos e ruelas seridoenses.

 O fato é que ele desenvolveu a percepção cognitiva de  maneira original, motivo pelo qual recebeu essa alcunha, tornando-se conhecido  de todos. Quando alguém lhe interrogava: “ João, eu me pareço com quem?”. Ele, imediatamente, respondia: “Com uma festa, com a Semana Santa, com um bezerro, uma cabrita...” Todos saiam satisfeitos por serem comparados a algo, para muitos, sem sentido algum. E o que pensava João a respeito disso?

Um dia, passeando pelas ruas, deparei-me com o quartinho onde João morava e despertou-me a curiosidade de saber o que tinha ali. Cheguei perto, com um certo receio, mas brechei pelo buraco da fechadura e vi latas, tampas, sacolas, tecidos, tiras de pano e muitos outros objetos que eram jogados ao lixo e catados por João.

Ele era zanolho, baixinho, tinha os pés para fora e fazia cachos, embora fosse careca. Coisas de João Doido...  Eu o achava muito bonitinho, não sei por que, mas a meus olhos era a representação fiel de um anjo comilão. Era ingênuo e não ficava agressivo facilmente, embora, nossas mães despertassem em nós um certo medo daquela criatura de Deus.

Voltando ao que interessa, continuei a pastorar João na sua casa. Notei que ele estava muito feliz com toda aquela lixaria e fui embora sem entender muita coisa. Os dias se passaram e dei continuidade as minhas pesquisas. O objeto do meu estudo era a imagem que ele usava para fazer suas comparações e, assim, ter argumentos que pudessem satisfazer às expectativas dos perguntadores ou de quem por ali passasse.
Numa dessas pesquisas, encontrei João perplexo, suado e extasiado exatamente na época do verão em que o calor é sufocante, observando atentamente as pedras, o reflexo do sol e a dança das luzes provocadas pelas tampas de leite em pó. Ele segurava uma delas como se o objeto de metal, em sua mão, fosse um espelho que recebia o espectro solar e distribuía a luz para as rochas, no meio da caatinga. Aproveitei e perguntei:
            __ João, eu me pareço com o quê?
            __ Com uma festa.
            __ Por quê, João, eu me pareço com uma festa?
            __ Porque sim!- disse ele em tom meio bravo.
Convidei-o para almoçar lá em casa e ele, prontamente, largou as latas e foi comigo.
            Ele gostava muito de Gorete, uma moça velha que sempre lhe oferecia café com pão, o seu melhor lanche.
            __João, com que eu me pareço? – perguntou a moça.
            __Goretinha parece com uma flor!- falou com os olhos brilhando...

Acredito que de doido João só tivesse o nome, porque, segundo a Semiologia, ciência que se preocupa com o significado dos signos lingüísticos, ele estava em seus devaneios, decodificando leis da Física e abstraindo situações do seu inconsciente. As metáforas usadas por ele nada mais eram que representações simbólicas do seu estado emocional no dado instante da pergunta feita por algum interiorano mais ousado.

Outro detalhe importante é que, ao juntar os materiais do mundo, João já fazia coleta seletiva e provava que Lavoisier, o pai da Física, tinha razão ao afirmar que “na natureza nada se perde, tudo se transforma”.
Isso nos faz chegar à conclusão de que doido não é quem pensa em demasia, é aquele que sofre de normose e pensa que está “na janela vendo a banda tocar para ele”.

 

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