O que é Memória?
Há
muitas acepções acerca desse termo, mas
nenhuma diz o que realmente o sentimento humano consegue
expressar. O mais comum é ouvirmos a frase: “segundo
o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, Memória
é a faculdade de reter idéias, impressões
e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Mas não
há apenas um significado, o próprio dicionário
enumera uma série de concepções sobre
a palavra. Uma das mais significativas traduções
é: Memória é aquilo que lhe serve
de lembrança. Pronto, esta é útil
para a abordagem aqui, neste artigo.
Começarei pela nascente das minhas
comunicações virtuais. Falarei sobre um
homem nordestino. Não era potiguar, não
escrevia poemas “politicamente corretos” e
fugia à regra do escritor erudito. Seu eruditismo
morava nas entrelinhas dos seus livros. Esse escriba chama-se
José Alcides pinto.
Natural de Santana do Acaraú,
no Ceará, o poeta, ficcionista, ensaísta,
prosador e crítico literário conseguiu romper
com o estigma da poesia moldada, construída sobre
os alicerces das normas poéticas e tornou-se pós-surrealista,
pós-concretista e demiúrgico.
Quando eu iniciei minhas conversas com
ele, eu ainda era menina de poesia assustada e tímida,
e pensava não conseguir manifestar minha verdadeira
visão erótico-lírica. Mas aos poucos,
fui conhecendo outros nomes como Nei Leandro de Castro
e o mundo descortinou-se para as minhas investigações
literárias.
Tudo
começou quando eu escrevi um poema para a revista
Papangu e este chamou a atenção do poeta
“maldito” como era denominado pela crítica.
Ele adquiriu o exemplar e logo entrou em contato comigo
através do contista Clauder Arcanjo que solicitou
meu endereço residencial. A partir daí,
José Alcides me enviou três livros: O relicário
pornô, A divina relação do corpo e
Diário de sabedoria. Eu os li e depois enviei minhas
impressões sobre as obras. Depois desse tempo de
leituras e conversas via internet, enviei vários
poemas meus e estes foram agradáveis aos seus olhos.
Em 22 de maio deste, ele me enviou um
e-mail que dizia: “Maria José Gomes, minha
amiga, publiquei dois novos livros de poesia O algodão
dos teus seios morenos e Teus doces arrabaldes e em um
destes há uma significativa homenagem a você”.
Agradecida, respondi sua mensagem e esperei ansiosa os
exemplares. Dia 31 de maio foram postados para mim.
Neste 04 de junho, recebi os livros e
vi que o meu poema Partilha figurava como carro-chefe
da obra O algodão dos teus seios morenos. Uma alegria
irrompeu de mim e eu fui devorá-los com a fome
comum aos que têm como prazer o hábito de
ler. Extasiada de poesia lhe enviei um e-mail parabenizando-o
e agradecendo a referência, sem jamais imaginar
que seria tarde demais.
O poeta faleceu dia 02 de junho aos
82 anos, dois dias após postar no correio de Fortaleza
esse presente de amigo para mim. Ele foi vítima
de um atropelamento moto ciclística. E eu senti
muito a perda desse poeta. Estes livros, que seriam lançados
em agosto de 2008, fazem parte dos meus bens emocionais.
Este ano a Academia Brasileira de Letras
lhe renderia uma justa homenagem pelo conjunto de sua
obra, tornando-o favorito ao prêmio de 50 mil reais,
o que considero simbólico em relação
ao seu trabalho intelectual e profissional na área
das letras.
Necessito dizer nessa coluna que a Memória
dos homens é muito curta e que homenagens póstumas
sublimam o que de fato deve ser saudado; os feitos do
cidadão. A memória é adormecida e
só acorda quando o tempo já não carece
de registros.
Diante desses argumentos, dedico essas
Páginas de Memória a José Alcides
Pinto (o poeta maldito), que ao longo se sua vida conseguiu
publicar mais de 45 livros, num país onde ‘só
de pão vive o homem’, o mercado editorial
orbita no imaginário dos escritores e o incentivo
ao conhecimento é apenas mais um item nas plataformas
de governo dos candidatos a cargos políticos.
Obrigada, José Alcides pinto!
Até o nosso próximo encontro por
esta mesma via.
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