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“Seu homem era belo e forte. Tinha cabelos compridos que lhe chegavam aos ombros. As mãos grossas e macias percorriam-lhe o corpo e detinham-se nas virilhas latejantes. Tinha o mesmo calor do sol que irradiava sobre a terra. Fechavam-se com fúria sobre suas nádegas, como se elas fossem um fruto a que se pretendesse tirar todo o sumo de uma só vez. Era o segundo homem que possuíra. O primeiro foi levado pelas ondas numa noite de tempestade.”

PINTO, José Alcides. O Diário de Berenice



O que é Memória?

Há muitas acepções acerca desse termo, mas nenhuma diz o que realmente o sentimento humano consegue expressar. O mais comum é ouvirmos a frase: “segundo o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, Memória é a faculdade de reter idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Mas não há apenas um significado, o próprio dicionário enumera uma série de concepções sobre a palavra. Uma das mais significativas traduções é: Memória é aquilo que lhe serve de lembrança. Pronto, esta é útil para a abordagem aqui, neste artigo.

Começarei pela nascente das minhas comunicações virtuais. Falarei sobre um homem nordestino. Não era potiguar, não escrevia poemas “politicamente corretos” e fugia à regra do escritor erudito. Seu eruditismo morava nas entrelinhas dos seus livros. Esse escriba chama-se José Alcides pinto.

Natural de Santana do Acaraú, no Ceará, o poeta, ficcionista, ensaísta, prosador e crítico literário conseguiu romper com o estigma da poesia moldada, construída sobre os alicerces das normas poéticas e tornou-se pós-surrealista, pós-concretista e demiúrgico.

Quando eu iniciei minhas conversas com ele, eu ainda era menina de poesia assustada e tímida, e pensava não conseguir manifestar minha verdadeira visão erótico-lírica. Mas aos poucos, fui conhecendo outros nomes como Nei Leandro de Castro e o mundo descortinou-se para as minhas investigações literárias.

Tudo começou quando eu escrevi um poema para a revista Papangu e este chamou a atenção do poeta “maldito” como era denominado pela crítica. Ele adquiriu o exemplar e logo entrou em contato comigo através do contista Clauder Arcanjo que solicitou meu endereço residencial. A partir daí, José Alcides me enviou três livros: O relicário pornô, A divina relação do corpo e Diário de sabedoria. Eu os li e depois enviei minhas impressões sobre as obras. Depois desse tempo de leituras e conversas via internet, enviei vários poemas meus e estes foram agradáveis aos seus olhos.

Em 22 de maio deste, ele me enviou um e-mail que dizia: “Maria José Gomes, minha amiga, publiquei dois novos livros de poesia O algodão dos teus seios morenos e Teus doces arrabaldes e em um destes há uma significativa homenagem a você”. Agradecida, respondi sua mensagem e esperei ansiosa os exemplares. Dia 31 de maio foram postados para mim.

Neste 04 de junho, recebi os livros e vi que o meu poema Partilha figurava como carro-chefe da obra O algodão dos teus seios morenos. Uma alegria irrompeu de mim e eu fui devorá-los com a fome comum aos que têm como prazer o hábito de ler. Extasiada de poesia lhe enviei um e-mail parabenizando-o e agradecendo a referência, sem jamais imaginar que seria tarde demais.

O poeta faleceu dia 02 de junho aos 82 anos, dois dias após postar no correio de Fortaleza esse presente de amigo para mim. Ele foi vítima de um atropelamento moto ciclística. E eu senti muito a perda desse poeta. Estes livros, que seriam lançados em agosto de 2008, fazem parte dos meus bens emocionais.

Este ano a Academia Brasileira de Letras lhe renderia uma justa homenagem pelo conjunto de sua obra, tornando-o favorito ao prêmio de 50 mil reais, o que considero simbólico em relação ao seu trabalho intelectual e profissional na área das letras.

Necessito dizer nessa coluna que a Memória dos homens é muito curta e que homenagens póstumas sublimam o que de fato deve ser saudado; os feitos do cidadão. A memória é adormecida e só acorda quando o tempo já não carece de registros.

Diante desses argumentos, dedico essas Páginas de Memória a José Alcides Pinto (o poeta maldito), que ao longo se sua vida conseguiu publicar mais de 45 livros, num país onde ‘só de pão vive o homem’, o mercado editorial orbita no imaginário dos escritores e o incentivo ao conhecimento é apenas mais um item nas plataformas de governo dos candidatos a cargos políticos.

Obrigada, José Alcides pinto!

Até o nosso próximo encontro por esta mesma via.


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