Eu poderia, se quisesse, iniciar esta matéria falando diretamente a respeito da pessoa que será destaque nessa semana. Mas vi que melhor seria, usando esta frase acima cuja expressão Jotônio Nunes Batista costumava dizer nas suas prosas. Pois bem, este homem que todos conhecem como Tontom, mas poucos reconhecem sua obra, foi um dos grandes nomes em relação a muitos cujas vidas habitam o universo anonimato. Faleceu em novembro de 2005. Infelizmente, faz parte do ser humano, valorizar alguém quando o perdemos, e ainda, estabelecer juízo de valor no momento em que seu legado desaparece da memória. No entanto, a intenção dessa coluna é memorizar e não esquecer.
Filho de Suetônia Batista (uma grande mulher das artes) e João Batista, Tontom viveu em Currais novos quase toda sua existência. Na adolescência, estudou em Recife e lá, em um colégio religioso, aprendeu Latim, Francês e um pouco de Esperanto. Ao retornar à terra natal dedicou sua vida ao trabalho de desenhista na mineração Tomaz Salustino.

O seu potencial criativo não se limitava a produção de designs mas também à prática de trabalhos artesanais. Suas habilidades partiam do desenho comum ao trabalho rebuscado das obras em madeira e nas criações de personagens indígenas, mitológicos e sertanejos. A intimidade com que delineava os corpos, as formas elaboradas e a expressão dos retratos criados por ele demonstravam a sensibilidade aguçada de um homem que tinha a arte como seu referencial.

Recebeu um título pela participação no concurso Talentos da Maturidade, promovido pelo Banco Real, em dezembro de 1999, com a peça em mogno talhada a imagem de um índio brasileiro, um dos seus temas favoritos. Restam ainda esculturas como um xamã, uma deusa grega, um caçador, a imagem de Jesus, incluindo peças presenteadas a familiares e amigos.
A História encaminhava-o a uma compreensão mais aguçada da realidade do homem, por isso era um assíduo leitor e eram essas leituras que faziam dele não só um seridoense apaixonado pela terra, mas um cidadão que acreditava nas possibilidades de um mundo melhor.
O seu hábito de ler e de questionar era um veio que o inspirava na construção de desenhos em sanguínea (técnica com o uso de lápis vermelho, comum à pintura) e com grafite ou pastel. Além da dinâmica no uso dessas ferramentas, introduzia o lápis de cor de maneira harmoniosa, resultando em imagens reais do cotidiano.

Às noites, costumava pegar seu violão e cantar a saudade, o amor e a amizade tendo como influência musical a mãe e os mestres da Música popular como Pixinguinha, Ataulfo Alves, Francisco Petrônio, Orlando Silva e Nelson Gonçalves, ícones de sua geração.
Jotônio Nunes Batista, meu caro leitor, fez da sua arte um jeito criativo, interessante, lúdico e didático para buscar uma vida de alegria e prazer.
Até o próximo encontro nessa mesma via.
Eme Gomes
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