O conteúdo dessa coluna não traduz necessariamente a linha editorial deste site, sendo seu conteúdo de total responsabilidade do colunista.
 
 
 

“Setembro passou, com oitubro e novembro,/já tamo em dezembro,/meu Deus que é de nós?/Assim fala o pobre do seco Nordeste,/com medo da peste,/da fome feroz”

(Patativa do Assaré – poesia cantada na voz de Luiz Gonzaga)

 


APOLOGIA ÀS FESTAS JUNINAS E AO RADINHO DE PILHA

A efemeridade do tempo aliada às mudanças repentinas da era moderna encaminha o homem, ser que esquece dos fatos com certa rapidez, a guardar no calabouço das memórias baús de fatos marcantes para uma sociedade. Algumas dessas lembranças são as Festas Juninas, realizadas todos os anos pelas vias da prática comum e o radinho de pilha, companheiro inseparável de muitos.
Na época em que os meios de comunicação de massa como o rádio eram raros e inacessíveis a um grande grupo, as festas de meados do ano aconteciam espontaneamente trazidas a contento pela tradição oral. Até então, tudo certo. O mais curioso disso é que o cerne da festividade, embora “perdido” nos conhecimentos da oralidade, sofria desfalque nos calendários sociais e religiosos. Salvo casos em que as escolas propunham essa divulgação de valores como efeito de entretenimento e enriquecimento intelectual, organizando quadrilhas e elegendo rainhas para a arrecadação de fundos usados nas edificações de projetos escolares.
          Onde quero chegar, caro memorialista? Se não houvesse um instrumento que veiculasse as músicas e levasse lazer à população seria irrisória a perpetuação da cultura sertaneja em regiões onde o serviço de comunicação trazia notícias já obsoletas e as famílias interessadas nas propostas do mundo contemporâneo naturalmente renegavam a segundo plano o que deveria tornar-se parte de seus costumes locais. È aqui que entra o rádio.
Nas fazendas, sítios e povoados o único meio de aprender as músicas juninas era ouvindo o radinho de pilha, famoso pela comunidade rural e urbana, porém muito mais pela primeira cujo veículo de entretenimento, além das vindas à cidade nos dias de feira-livre, trazia o desejo de visitar os lugares por onde aquelas vozes saiam informando, divertindo e ensinando.
Um dos grandes pontos da radiofonia foi a ascensão do mestre Luiz Gonzaga nas emissoras do sudeste do Brasil, carregando às costas a responsabilidade de moralizar o Nordeste, com a apresentação do que havia de melhor por aqui, sem deixar de cantar a dor da seca e o sofrimento do homem do sertão. Com esse acontecimento primoroso, o povo nordestino empático ao que pregava o Rei do Baião, expandiu seu processo de amplificação da cultura sertaneja.
         Com isso o mês de junho granjeou maior importância no sentido de que a continuidade oferecida via práxis pelas ondas do rádio com canções alusivas ao chão sofrido, pardacento e arenoso mas também alegre, resignado e esperançoso fizeram das festas populares um dos eventos de maior repercussão nacional. Em conseqüência dessa preocupação, diria, inconsciente, a tradição arraigou-se às datas comemorativas a ponto de criar diversificadas formas de exibir espetáculos cada vez mais criativos, unindo pompa e cultura numa época de desigualdades sociais perceptíveis a qualquer indivíduo.
         De qualquer maneira, positiva ou negativa, a revolução nas indumentárias e os temas abordados nas competições juninas tornam-se uma manifestação de abertura às novas idéias coletivas, além de exercerem a função de instrumento denunciador das injustiças sociais, levando a muitos a consciência de que são realmente cidadãos capazes de compreender a realidade.
         Atualmente, em virtude do avanço tecnológico, as chances de enxergar uma cultura própria estão mais aparentes e próximas (acredito) não apenas virtual, mas de conteúdo concreto voltado para o crescimento de toda a coletividade.
         Com este artigo, nós da coluna Páginas de Memória, sentimos o dever de resgatar, sem mais preâmbulos, determinados aspectos culturais muitas vezes escamoteados pela velocidade do cotidiano como a importância do Rádio e das Festas Juninas.

“ Quando oiei a terra ardendo/ qual fogueira de São João/ eu perguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha judiação?”

(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

Até o nosso próximo encontro por esta mesma via!



----------------------------------------------------------------

VEJA AS ANTERIORES

-Cabo Adolfo

-Luís Carlos Guimarães

-Memória: Jotônio Nunes Batista

-Memória Viva, boas recordações.