Palmas para o Sertão

Por: Fátima Souza - Da Redação - Publicada em 30 de dezembro de 2009
Fotos: Fátima Souza

Euclides da Cunha certa vez afirmou que " o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, e ele estava certo. Para driblar as dificuldades e desafios impostos pelas longas estiagens, pelo clima seco e sol escaldante, muitos nordestinos têm que buscar permanentemente novas alternativas para sobreviver.

E nos últimos anos a agropecuária brasileira tem apresentando, depois de investimentos e pesquisas, significativo crescimento na produção através de adoção de inovações tecnológicas.

Às margens do Açude Dourado, na comunidade Santa Izabel, em Currais Novos/RN, um projeto inovador na região vem mudando a realidade de agricultores, que compõem a AFASID (Associação dos Agricultores e Familiares da Comunidade Santa Izabel e Açude Dourado). O projeto chamado “Palma Irrigada e Adensada”, possui uma nova técnica de plantio da Palma, uma planta originária do México, que foi introduzida na Brasil no início do século XX, com intuito de abrigar um inseto para a produção de corante natural utilizado no tingimento de tecidos, situação mudada com o surgimento do corante artificial, mas com o tempo, passou a ser usado como pasto para animais como bovinos, caprinos e ovinos, tornando-se assim uma alternativa de alimentação desses rebanhos.

Por ser uma planta resistente, que se adapta bem em qualquer tipo de solo, inclusive no semi-árido nordestino, e principalmente, por precisar de pouca água para crescer, a xerófila tem expectativa de tornar-se, como já acontece em outros estados, como na Paraíba e em Pernambuco, uma das melhores opções de renda para os agricultores locais. O projeto, que visa avaliar sistemas de cultivo irrigado e adensado de palma forrageira, com ênfase na sustentabilidade técnica, econômica e ambiental, ainda experimental no interior do RN, está sendo desenvolvido pelo SEBRAE, em parceria com o Instituto Cooperforte e Rede Aprisco, e chegou ao estado potiguar há uma e meio, inspirado em um caso de sucesso, na cidade de Juazeirinho, no estado vizinho da Paraíba.

A nova técnica muda a forma de plantio. Antes o palmal era plantado sem os cuidados necessários com distâncias grandes de uma planta para outra. Após pesquisas e experimentos a maneira de plantar mudou. Agora são utilizadas dez raquetes (planta mãe) por metro linear, com 10 centímetros de uma para outra, voltadas para o sol de maneira que incida a maior quantidade de raios solares durante o dia. A notícia boa é que a irrigação necessita de pouca água, e é realizada com uso de fita gotejadora, desenvolvida em Israel, com tubos com gotejadores a cada 30 cm, o que na prática quer dizer, que para cada metro linear o volume de água necessário é de 5 litros a cada 15 dias, ou seja, apenas 10 litros por mês por metro plantado.

A produtividade também é outro ponto positivo. Com todos os cuidados de irrigação e adubação química e orgânica corretamente, o sistema de produção irrigado e adensado indica uma produção anual de 600 toneladas por hectare em média, chegando em alguns casos a números impressionantes de uma tonelada, colhido a cada 12 meses. Na colheita preserva-se a planta mãe, depois disso é só aguardar o nascimento de novas “raquetes filhas”, para depois de um ano realizar um novo corte, e assim sucedendo novos ciclos.


O agropecuarista Francisco Sobrinho, o Chicão(foto), proprietário do local onde está sendo desenvolvido o projeto é um dos otimistas em relação ao plantio da palma. “Não tenho dúvidas que a palma vai ser a redenção em um futuro muito próximo para quem quer criar ruminantes. Só para se ter uma idéia, uma hectare de palma bem manejada ela seria suficiente para alimentar mil cabras, ou seja, todo o rebanho caprino do município de Currais Novos dentro daquele período mais crítico do ano e ainda sobraria em torno de 50% para transformar em farelo, com um mercado certo”, afirma.

O produtor explica que a palma é um alimento completo. O aspecto nutritivo da planta tem alta concentração de energia e água, com boa digestibilidade, rico em mineral, carboidratos, muito apreciado pelos rebanhos e indicado como alimento para a aumento da produção de leite. “Nós vivemos no semi-árido onde a questão da água é um grande problema, e onde não se tem água tem que se trabalhar com palma, porque essa planta traz duas coisas que o animal necessita na nossa região são os carboidratos e a água, ela é composta por 90% de água”, explica.

E mercado para o produto não falta. Além de alimentar os rebanhos com a palma in natura, a outra alternativa é o farelo da palma que pode ser armazenado para os períodos de estiagem e também vendido para os criadores de rebanhos. Na Paraíba também há experiências na fabricação de doces e cosméticos utilizando a planta. Além da venda dos derivados da palma, os produtos possíveis gerados graças a planta, como o leite produzido por rebanhos alimentados com a palma durante todo o ano, situação quase impossível anteriormente, tem mercado certo através dos projetos do Governo Federal como a “Compra Direta”. “Nós temos casos aqui na associação de pessoas que vendem para esse programa, com preço acima de mercado e o reembolso é imediato, e agora com a Lei de Segurança Alimentar que a partir 2010, o Governo Municipal vai ter que comprar 30% de produtos produzido no município para inserir dentro da merenda escolar, isso vai melhorar ainda mais”, disse.

Chicão também esclarece que para se desenvolver uma cultura de produção de qualidade tem que se recorrer às parcerias. “Nós fomos agraciados com a parceria Cooperforte e Sebrae, e o Banco do Nordeste em conversas que eu tive com Dalvanise e Gustavo, que são os encarregados do setor de agronegócios tem todo o interesse de levar essa tecnologia para aqueles agricultores que ainda não tem, e se você for analisar o BNB que é um dos maiores financiadores de bovinos de leite da região se não aderir a essa tecnologia, o que vai acontecer no futuro muito próximo é que o camarada vai pegar aquela vaquinha e vai ter que vender a “troco de nada” porque não tem alimentação, em função das dificuldades do inverno daqui, que a gente sabe que é muito irregular”, lembra.

O analista técnico do Sebrae, Gustavo Cosme destaca que desde o início os resultados do projeto vem surpreendendo a todos. “A produtividade é enorme em relação a técnica antiga de plantio, a gente visitou um projeto que é muito bem sucedido na Paraíba, nós temos grandes criadores no Estado que se a gente tiver uma tonelada de farelo de palma, eles têm disponibilidade de comprar, nós sabemos onde eles estão, então é um mercado diferente, se os produtores quiserem investir o mercado existe, além de outras várias alternativas como a venda de leite. Nós construímos esse projeto para quebrar um dos gargalos que os produtores da região do Seridó principalmente têm que é a alimentação animal. Infelizmente nós não temos orçamento para fazer para todo mundo, mas podemos apoiar o sonho de cada um. E não precisa ser um hectare, pode-se desenvolver um sistema simplificado plantando em uma área menor, mas todo mundo pode produzir palma”, concluiu.

Na sua sabedoria de homem do campo Chicão abre uma discussão: A produção de alimentos. “Se você for analisar hoje essa tecnologia que o meio rural adquiriu nos últimos anos fez com que Lula sentasse ao lado de Obama, que o Brasil fosse respeitado internacionalmente, e isso aconteceu porque o Brasil tem alimento. E estou preocupado porque nós estamos vivenciando dois grandes eventos esportivos no Brasil em nível mundial, que é uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, e se não for tomada, num prazo muito curto, medidas sérias e de responsabilidade para manter o homem no campo, esse trabalhador rural vai sair do campo e vai trabalhar na construção civil, inchar as cidades e vai deixar de produzir alimento, e os nossos filhos vão sofrer isso na pele”, alerta.

A palma não só colore de verde o cinza do sertão seco, mas aparece como alternativa para mudar a realidade do êxodo rural, e está sendo responsável pela geração de postos de trabalho e pela permanência do homem no campo, tornando possível e atrativo a manutenção dos filhos dos produtores em suas comunidades rurais de origens. Diego Souza,16 anos, é um pequeno criador de caprinos e já sente a diferença com a chegada da palma. “Antes na época da seca meu rebanho passava muitas dificuldades principalmente com relação a água e alimentação, e com a chegada da palma está tudo melhor, as cabras melhoraram a produção o rendimento em relação ao peso, só para se ter uma idéia, antes eu tirava cinco litros de leite em um rebanho de 12 animais, e agora as cabras estão produzindo um litro cada uma, e com isso minha renda aumentou e tudo está melhorando”, falou o produtor.

O experimento do plantio da Palma está à disposição para agricultores de todo estado. Chicão explica que através do sucesso na Santa Izabel os produtores podem ir até a comunidade para observar e levar a tecnologia para implantar em suas comunidades. “Eu moro aqui e estou sempre disposto a ajudar, e cedi por comodato essa área para esse experimento, também fizemos um contrato de cinco anos com nove produtores de leite de cabra, da “Vila das Cabras” que é um grupo de pequenos criadores que saíram do meio rural para morar no centro urbano, e hoje tiram a sua sustentabilidade alimentando seus rebanhos com a palma plantada aqui, e estamos abertos para qualquer outra pessoa de associação, de município, de pequenas propriedades que queira conhecer essa técnica, a produção é 10 vezes mais do que o sistema antigo e estamos todos os dias aqui, trabalhando, produzindo e fazendo com que o Brasil continue crescendo, porque a mola do mundo hoje não é bomba nuclear, não são grandes tecnologias para utilizar em outros fins, mas alimento, não pensem que o Irã ou qualquer outro país vai resolver seus problemas jogando bomba, a solução é produzir comida para matar a fome de seu povo”, completou.

No Rio Grande do Norte, além de Currais Novos, o município de Rui Barbosa também está com um plantio experimental. No Seridó Potiguar quem quiser conhecer o projeto pode agendar uma visita com o produtor Chicão, é so ligar (84) 9941-2799 / 9141-7420. E ele estará pronto para mostrar o projeto com a visão consciente e otimista que só ele tem.