Euclides
da Cunha certa vez afirmou que " o sertanejo é, antes
de tudo, um forte”, e ele estava certo. Para driblar as
dificuldades e desafios impostos pelas longas estiagens, pelo
clima seco e sol escaldante, muitos nordestinos têm que
buscar permanentemente novas alternativas para sobreviver.
E nos últimos anos a agropecuária brasileira tem
apresentando, depois de investimentos e pesquisas, significativo
crescimento na produção através de adoção
de inovações tecnológicas.
Às margens do Açude
Dourado, na comunidade Santa Izabel, em Currais Novos/RN, um projeto
inovador na região vem mudando a realidade de agricultores,
que compõem a AFASID (Associação dos Agricultores
e Familiares da Comunidade Santa Izabel e Açude Dourado).
O projeto chamado “Palma Irrigada e Adensada”, possui
uma nova técnica de plantio da Palma, uma planta originária
do México, que foi introduzida na Brasil no início
do século XX, com intuito de abrigar um inseto para a produção
de corante natural utilizado no tingimento de tecidos, situação
mudada com o surgimento do corante artificial, mas com o tempo,
passou a ser usado como pasto para animais como bovinos, caprinos
e ovinos, tornando-se assim uma alternativa de alimentação
desses rebanhos.
Por
ser uma planta resistente, que se adapta bem em qualquer tipo
de solo, inclusive no semi-árido nordestino, e principalmente,
por precisar de pouca água para crescer, a xerófila
tem expectativa de tornar-se, como já acontece em outros
estados, como na Paraíba e em Pernambuco, uma das melhores
opções de renda para os agricultores locais. O projeto,
que visa avaliar sistemas de cultivo irrigado e adensado de palma
forrageira, com ênfase na sustentabilidade técnica,
econômica e ambiental, ainda experimental no interior do
RN, está sendo desenvolvido pelo SEBRAE, em parceria com
o Instituto Cooperforte e Rede Aprisco, e chegou ao estado potiguar
há uma e meio, inspirado em um caso de sucesso, na cidade
de Juazeirinho, no estado vizinho da Paraíba.
A nova técnica muda a forma
de plantio. Antes o palmal era plantado sem os cuidados necessários
com distâncias grandes de uma planta para outra. Após
pesquisas e experimentos a maneira de plantar mudou. Agora são
utilizadas dez raquetes (planta mãe) por metro linear,
com 10 centímetros de uma para outra, voltadas para o sol
de maneira que incida a maior quantidade de raios solares durante
o dia. A notícia boa é que a irrigação
necessita de pouca água, e é realizada com uso de
fita gotejadora, desenvolvida em Israel, com tubos com gotejadores
a cada 30 cm, o que na prática quer dizer, que para cada
metro linear o volume de água necessário é
de 5 litros a cada 15 dias, ou seja, apenas 10 litros por mês
por metro plantado.
A produtividade também
é outro ponto positivo. Com todos os cuidados de irrigação
e adubação química e orgânica corretamente,
o sistema de produção irrigado e adensado indica
uma produção anual de 600 toneladas por hectare
em média, chegando em alguns casos a números impressionantes
de uma tonelada, colhido a cada 12 meses. Na colheita preserva-se
a planta mãe, depois disso é só aguardar
o nascimento de novas “raquetes filhas”, para depois
de um ano realizar um novo corte, e assim sucedendo novos ciclos.
O agropecuarista Francisco Sobrinho, o Chicão(foto), proprietário
do local onde está sendo desenvolvido o projeto é
um dos otimistas em relação ao plantio da palma.
“Não tenho dúvidas que a palma vai ser a redenção
em um futuro muito próximo para quem quer criar ruminantes.
Só para se ter uma idéia, uma hectare de palma bem
manejada ela seria suficiente para alimentar mil cabras, ou seja,
todo o rebanho caprino do município de Currais Novos dentro
daquele período mais crítico do ano e ainda sobraria
em torno de 50% para transformar em farelo, com um mercado certo”,
afirma.
O produtor explica que a palma
é um alimento completo. O aspecto nutritivo da planta tem
alta concentração de energia e água, com
boa digestibilidade, rico em mineral, carboidratos, muito apreciado
pelos rebanhos e indicado como alimento para a aumento da produção
de leite. “Nós vivemos no semi-árido onde
a questão da água é um grande problema, e
onde não se tem água tem que se trabalhar com palma,
porque essa planta traz duas coisas que o animal necessita na
nossa região são os carboidratos e a água,
ela é composta por 90% de água”, explica.
E mercado para o produto não
falta. Além de alimentar os rebanhos com a palma in natura,
a outra alternativa é o farelo da palma que pode ser armazenado
para os períodos de estiagem e também vendido para
os criadores de rebanhos. Na Paraíba também há
experiências na fabricação de doces e cosméticos
utilizando a planta. Além da venda dos derivados da palma,
os produtos possíveis gerados graças a planta, como
o leite produzido por rebanhos alimentados com a palma durante
todo o ano, situação quase impossível anteriormente,
tem mercado certo através dos projetos do Governo Federal
como a “Compra Direta”. “Nós temos casos
aqui na associação de pessoas que vendem para esse
programa, com preço acima de mercado e o reembolso é
imediato, e agora com a Lei de Segurança Alimentar que
a partir 2010, o Governo Municipal vai ter que comprar 30% de
produtos produzido no município para inserir dentro da
merenda escolar, isso vai melhorar ainda mais”, disse.
Chicão
também esclarece que para se desenvolver uma cultura de
produção de qualidade tem que se recorrer às
parcerias. “Nós fomos agraciados com a parceria Cooperforte
e Sebrae, e o Banco do Nordeste em conversas que eu tive com Dalvanise
e Gustavo, que são os encarregados do setor de agronegócios
tem todo o interesse de levar essa tecnologia para aqueles agricultores
que ainda não tem, e se você for analisar o BNB que
é um dos maiores financiadores de bovinos de leite da região
se não aderir a essa tecnologia, o que vai acontecer no
futuro muito próximo é que o camarada vai pegar
aquela vaquinha e vai ter que vender a “troco de nada”
porque não tem alimentação, em função
das dificuldades do inverno daqui, que a gente sabe que é
muito irregular”, lembra.
O analista técnico do Sebrae,
Gustavo Cosme destaca que desde o início os resultados
do projeto vem surpreendendo a todos. “A produtividade é
enorme em relação a técnica antiga de plantio,
a gente visitou um projeto que é muito bem sucedido na
Paraíba, nós temos grandes criadores no Estado que
se a gente tiver uma tonelada de farelo de palma, eles têm
disponibilidade de comprar, nós sabemos onde eles estão,
então é um mercado diferente, se os produtores quiserem
investir o mercado existe, além de outras várias
alternativas como a venda de leite. Nós construímos
esse projeto para quebrar um dos gargalos que os produtores da
região do Seridó principalmente têm que é
a alimentação animal. Infelizmente nós não
temos orçamento para fazer para todo mundo, mas podemos
apoiar o sonho de cada um. E não precisa ser um hectare,
pode-se desenvolver um sistema simplificado plantando em uma área
menor, mas todo mundo pode produzir palma”, concluiu.
Na
sua sabedoria de homem do campo Chicão abre uma discussão:
A produção de alimentos. “Se você for
analisar hoje essa tecnologia que o meio rural adquiriu nos últimos
anos fez com que Lula sentasse ao lado de Obama, que o Brasil
fosse respeitado internacionalmente, e isso aconteceu porque o
Brasil tem alimento. E estou preocupado porque nós estamos
vivenciando dois grandes eventos esportivos no Brasil em nível
mundial, que é uma Copa do Mundo e uma Olimpíada,
e se não for tomada, num prazo muito curto, medidas sérias
e de responsabilidade para manter o homem no campo, esse trabalhador
rural vai sair do campo e vai trabalhar na construção
civil, inchar as cidades e vai deixar de produzir alimento, e
os nossos filhos vão sofrer isso na pele”, alerta.
A palma não só colore
de verde o cinza do sertão seco, mas aparece como alternativa
para mudar a realidade do êxodo rural, e está sendo
responsável pela geração de postos de trabalho
e pela permanência do homem no campo, tornando possível
e atrativo a manutenção dos filhos dos produtores
em suas comunidades rurais de origens. Diego Souza,16 anos, é
um pequeno criador de caprinos e já sente a diferença
com a chegada da palma. “Antes na época da seca meu
rebanho passava muitas dificuldades principalmente com relação
a água e alimentação, e com a chegada da
palma está tudo melhor, as cabras melhoraram a produção
o rendimento em relação ao peso, só para
se ter uma idéia, antes eu tirava cinco litros de leite
em um rebanho de 12 animais, e agora as cabras estão produzindo
um litro cada uma, e com isso minha renda aumentou e tudo está
melhorando”, falou o produtor.
O
experimento do plantio da Palma está à disposição
para agricultores de todo estado. Chicão explica que através
do sucesso na Santa Izabel os produtores podem ir até a
comunidade para observar e levar a tecnologia para implantar em
suas comunidades. “Eu moro aqui e estou sempre disposto
a ajudar, e cedi por comodato essa área para esse experimento,
também fizemos um contrato de cinco anos com nove produtores
de leite de cabra, da “Vila das Cabras” que é
um grupo de pequenos criadores que saíram do meio rural
para morar no centro urbano, e hoje tiram a sua sustentabilidade
alimentando seus rebanhos com a palma plantada aqui, e estamos
abertos para qualquer outra pessoa de associação,
de município, de pequenas propriedades que queira conhecer
essa técnica, a produção é 10 vezes
mais do que o sistema antigo e estamos todos os dias aqui, trabalhando,
produzindo e fazendo com que o Brasil continue crescendo, porque
a mola do mundo hoje não é bomba nuclear, não
são grandes tecnologias para utilizar em outros fins, mas
alimento, não pensem que o Irã ou qualquer outro
país vai resolver seus problemas jogando bomba, a solução
é produzir comida para matar a fome de seu povo”,
completou.
No Rio Grande do Norte, além
de Currais Novos, o município de Rui Barbosa também
está com um plantio experimental. No Seridó Potiguar
quem quiser conhecer o projeto pode agendar uma visita com o produtor
Chicão, é so ligar (84) 9941-2799 / 9141-7420. E
ele estará pronto para mostrar o projeto com a visão
consciente e otimista que só ele tem.
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